Resposta direta: duas pessoas na mesma dose de semaglutida ou tirzepatida podem ter perdas de peso muito diferentes, e uma delas pode passar semanas com náusea enquanto a outra não sente nada. Parte dessa diferença está nos genes dos receptores em que esses medicamentos agem.
Em abril de 2026, o maior estudo genético já feito sobre o tema, com 27.885 usuários, associou uma variante do gene GLP1R a maior perda de peso e uma variante do gene GIPR a mais vômitos com tirzepatida.1 São achados recentes, com replicação ainda parcial, e a genética é só um dos fatores — mas é o primeiro dado objetivo sobre uma pergunta que muita gente faz.
As chamadas canetas emagrecedoras mudaram o tratamento da obesidade. Nos grandes estudos clínicos, a perda média de peso ficou em torno de 15% com semaglutida e entre 15% e 21% com tirzepatida, conforme a dose.3,4
Média, porém, esconde gente. Nesses mesmos estudos, uma parcela dos participantes não chegou a perder 5% do peso. E os efeitos gastrointestinais — náusea, vômito, diarreia — foram os eventos adversos mais comuns, o suficiente para parte das pessoas interromper o tratamento.3,4
Por que isso acontece? Durante anos, a resposta foi "cada organismo é diferente". Agora começa a haver uma resposta mais específica.
Como esses medicamentos agem
A semaglutida imita o GLP-1, um hormônio produzido pelo intestino depois das refeições. Ela se liga ao receptor de GLP-1, codificado pelo gene GLP1R, e isso aumenta a saciedade, retarda o esvaziamento do estômago e melhora o controle da glicose.
A tirzepatida faz o mesmo e mais: age também no receptor de GIP, codificado pelo gene GIPR, outro hormônio intestinal. É por isso que ela é chamada de agonista duplo.
O que o maior estudo genético encontrou
Pesquisadores analisaram dados de 27.885 pessoas que usaram semaglutida ou tirzepatida e relataram a perda de peso e os efeitos colaterais que tiveram. O estudo foi publicado na Nature em abril de 2026.1
GLP1R: mais perda de peso
Uma variante no gene do receptor de GLP-1, a rs10305420 (que troca um aminoácido na posição 7 da proteína, p.Pro7Leu), se associou a maior perda de peso com os dois medicamentos: cerca de 0,76 kg a mais para cada cópia da variante. A associação foi confirmada numa segunda coorte, com dados de prontuário eletrônico de 4.855 pessoas. A mesma região do gene também se associou a náusea e vômito — e quem tinha mais náusea tendia a perder mais peso.1
GIPR: mais vômito, só com tirzepatida
Uma variante no gene do receptor de GIP, a rs1800437 (p.Glu354Gln), se associou a vômito apenas em quem usava tirzepatida, com chance cerca de 1,8 vez maior por cópia.1 Faz sentido biológico: a semaglutida não age no receptor de GIP, então uma variação nesse gene não deveria afetá-la.
Uma hipótese levantada pelos autores é que a ativação do receptor de GIP ajude a amortecer a náusea provocada pelo GLP-1 — e que a variante reduza esse amortecimento. Ainda é hipótese.
As duas juntas
Pessoas com duas cópias das variantes de risco nos dois genes tiveram chance estimada cerca de 15 vezes maior de vômito com tirzepatida do que quem não tinha nenhuma. O próprio estudo classifica a evidência dessa interação como fraca, e o intervalo de confiança é largo.1
| Variante | Gene | Associação encontrada | Medicamento |
|---|---|---|---|
| rs10305420 p.Pro7Leu |
GLP1R | Maior perda de peso, cerca de 0,76 kg a mais por cópia; também associada a náusea e vômito | Semaglutida e tirzepatida |
| rs1800437 p.Glu354Gln |
GIPR | Mais vômito, chance cerca de 1,8 vez maior por cópia | Só tirzepatida |
| As duas, em dose dupla | GLP1R + GIPR | Chance estimada cerca de 15 vezes maior de vômito; evidência de interação fraca | Tirzepatida |
O que esses achados ainda não dizem
Aqui vale ser tão preciso quanto no parágrafo anterior.
A confirmação ainda é parcial. A associação do GLP1R com perda de peso foi reproduzida numa segunda coorte, mas não em uma terceira, com poder estatístico baixo; a do GIPR com vômito ainda não teve confirmação independente.1 Além disso, os dados principais são autorrelatados. Por isso, uma revisão publicada em agosto de 2026 no Diabetes, Obesity and Metabolism recomenda tratar esses achados como geradores de hipótese, não como base para decisão individual. A mesma revisão aponta que, hoje, o preditor mais útil de resposta é a resposta observada nas primeiras semanas de tratamento.2
A genética pesa menos que o resto. Nos modelos do próprio estudo, sexo, tipo e dose do medicamento, tempo de tratamento e condições como diabetes tipo 2 explicaram muito mais da variação do que os genes.1
A população estudada não é a brasileira. A análise genética principal foi feita em pessoas de ascendência europeia, e a frequência das variantes muda entre populações: a variante do GLP1R aparece em cerca de 40% dos alelos europeus e 28% dos latino-americanos miscigenados; a do GIPR, em cerca de 20% e 11%, respectivamente. Nos participantes latinos, os efeitos foram na mesma direção, mas com menos gente analisada.1,5
Outros genes também foram estudados. Pesquisas anteriores associaram outras variantes, como a rs6923761 do GLP1R e variantes do gene ARRB1, à resposta glicêmica em pessoas com diabetes tipo 2.6 O retrato genético da resposta ainda está sendo montado.
A genética não diz qual medicamento usar. Ela acrescenta uma peça objetiva a uma decisão que continua sendo clínica.
A escolha, a dose e a progressão são sempre do médicoEntão, para que fazer o exame?
Porque, mesmo com essas limitações, ele responde a uma pergunta que nenhum outro exame responde: como são, no seu DNA, os receptores em que esses medicamentos agem. E isso tem utilidade prática em algumas situações.
Náusea ou vômito difíceis de tolerar
É onde o sinal genético é mais forte. Saber que existe predisposição, sobretudo com tirzepatida, é informação útil para a conversa sobre o ritmo de aumento da dose ou sobre alternativas.
Perda de peso abaixo do esperado
O exame não explica a resposta inteira, mas acrescenta um dado objetivo a uma investigação que costuma ficar só no "cada organismo é diferente".
Antes de começar
Para levar mais uma informação à conversa com o médico, especialmente quando há histórico de intolerância a essa classe de medicamento na família.
Uma vez na vida
O DNA não muda. O resultado continua válido se o tratamento for retomado ou trocado no futuro.
O que o exame da Vinci analisa
O exame genético de resposta ao GLP-1 analisa exatamente as duas variantes do estudo de 2026: GLP1R rs10305420 e GIPR rs1800437. O laudo traz os genótipos identificados e a leitura individual e combinada de cada um em relação à resposta e à tolerabilidade.
A coleta é por swab bucal, em casa, com kit enviado para todo o Brasil, ou na unidade Vinci em São Paulo. Não é preciso suspender o medicamento para fazer o exame. Não é necessário pedido médico, e a consulta médica para interpretar o resultado está inclusa.
O que o exame não faz
Não indica, não contraindica, não escolhe o medicamento e não define dose. Idade, sexo, peso inicial, dose, tempo de tratamento, outras condições de saúde, outros medicamentos, alimentação e atividade física pesam tanto quanto a genética. Não é indicado para diabetes tipo 1, para quem tem contraindicação a essa classe de medicamento nem para menores de 18 anos.
Conheça os seus receptores
Análise de GLP1R e GIPR por swab bucal, feita uma vez na vida, com consulta médica inclusa para levar o resultado ao contexto do seu tratamento.
Perguntas frequentes
A genética influencia a perda de peso com semaglutida e tirzepatida?
Por que tenho tanta náusea com tirzepatida?
Existe exame para saber se a caneta emagrecedora vai funcionar comigo?
O exame diz se devo usar semaglutida ou tirzepatida?
Quais genes o exame analisa?
Preciso parar o medicamento para fazer o exame?
Preciso repetir o exame?
Preciso de pedido médico?
Referências
- Su QJ, Ashenhurst JR, Xu W, et al. Genetic predictors of GLP1 receptor agonist weight loss and side effects. Nature. 2026;653(8115):770-775. doi:10.1038/s41586-026-10330-z
- Kuryłowicz A, Czupryniak L. Responders vs. non-responders or how to predict the response to GLP-1 or GLP-1/GIP receptor agonist therapy. Diabetes Obes Metab. 2026. doi:10.1111/dom.71226
- Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S, et al. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity (STEP 1). N Engl J Med. 2021;384(11):989-1002. doi:10.1056/NEJMoa2032183
- Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, et al. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity (SURMOUNT-1). N Engl J Med. 2022;387(3):205-216. doi:10.1056/NEJMoa2206038
- La Vignera S, Condorelli RA. Personalization of incretin therapy: can GLP-1 and GIP receptor polymorphisms influence therapy response? J Endocr Soc. 2026;10(8):bvag149. doi:10.1210/jendso/bvag149
- Dawed AY, Mari A, Brown A, et al. Pharmacogenomics of GLP-1 receptor agonists: a genome-wide analysis of observational data and large randomised controlled trials. Lancet Diabetes Endocrinol. 2023;11(1):33-41. doi:10.1016/S2213-8587(22)00340-0