As terapias anti-amiloide são anticorpos monoclonais que removem placas de beta-amiloide do cérebro. Foram estudadas apenas nas fases iniciais sintomáticas da doença de Alzheimer, isto é, no comprometimento cognitivo leve (CCL) ou na demência leve, em pacientes com patologia amiloide confirmada. Nos ensaios de fase 3, reduziram a carga amiloide e desaceleraram de forma moderada o declínio cognitivo e funcional, sem interromper a progressão da doença.
Antes de considerar o tratamento, o médico precisa confirmar a presença de amiloide (por PET ou líquor; os exames de sangue entram como etapa de triagem), conhecer o genótipo APOE, que modifica o risco de ARIA, e dispor de uma ressonância magnética de base. No Brasil, a ANVISA registrou dois anticorpos dessa classe em 2025, com indicação restrita a adultos não portadores ou heterozigotos do alelo ε4. A indicação é individual e cabe ao neurologista.
O que são as terapias anti-amiloide para Alzheimer?
São anticorpos monoclonais anti-amiloide, administrados por infusão intravenosa periódica, que se ligam a formas agregadas da beta-amiloide e favorecem sua remoção do cérebro. A beta-amiloide forma as placas características da doença de Alzheimer e, ao lado dos emaranhados de proteína Tau, define a patologia da doença.
Por atuarem sobre um dos processos biológicos da doença, ao contrário dos medicamentos sintomáticos, são chamados de terapias modificadoras da doença. O mecanismo explica a principal exigência para usá-los: só faz sentido tratar quem tem amiloide comprovado no cérebro.
Para quem esses tratamentos foram estudados?
Os dois ensaios de fase 3 que sustentam o uso atual incluíram pacientes com Alzheimer em fase inicial sintomática. No primeiro, publicado no New England Journal of Medicine, participaram 1.795 pessoas de 50 a 90 anos com CCL ou demência leve devida ao Alzheimer e amiloide confirmado por PET ou por exame do líquor. No segundo, publicado no JAMA, participaram 1.736 pessoas com CCL ou demência leve e patologia amiloide e tau demonstrada por PET.
Os resultados, portanto, não se aplicam a pessoas sem sintomas nem a fases avançadas da demência. Como a segurança e a eficácia só são conhecidas em pacientes semelhantes aos dos ensaios, as recomendações de uso apropriado publicadas em 2023 seguem de perto os critérios de inclusão e exclusão dos estudos e orientam não iniciar o tratamento em quem precisa de anticoagulantes, pelo risco de hemorragia.
O que mostraram os ensaios de fase 3?
Nos dois estudos, os pacientes tratados também pioraram, porém mais devagar que os do grupo placebo, uma diferença significativa e de magnitude moderada. O principal efeito adverso foi a ARIA, descrita adiante.
| Ensaio | Efeito clínico | ARIA com edema ou efusão |
|---|---|---|
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Clarity AD NEJM, 2023 · 18 meses |
Variação no CDR-SB (escala de 0 a 18 que soma cognição e funcionalidade) de 1,21 com o anticorpo e 1,66 com placebo; diferença de −0,45. | 12,6% dos tratados |
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TRAILBLAZER-ALZ 2 JAMA, 2023 · 76 semanas |
Diferença de 3,25 pontos na escala iADRS nos pacientes com tau baixa ou intermediária e de 2,92 na população total; no CDR-SB, diferenças de −0,67 e −0,70. | 24,0% dos tratados e 2,1% no placebo |
No primeiro ensaio, em um subestudo com 698 participantes, a redução da carga amiloide no PET foi de 59,1 centiloides em relação ao placebo, e 26,4% dos tratados tiveram reações à infusão. No segundo, as reações à infusão ocorreram em 8,7% dos tratados, e três mortes no grupo do anticorpo e uma no grupo placebo foram consideradas relacionadas ao tratamento.
Quais exames são exigidos antes do tratamento?
A avaliação pré-tratamento procura responder se há patologia amiloide, qual é o risco de ARIA para aquele paciente e se o cérebro já apresenta alterações que contraindicam o uso. Isso se traduz em confirmação de amiloide, genotipagem do APOE e ressonância magnética, além da avaliação neurológica e cognitiva que estabelece o estágio da doença.
Confirmação da patologia amiloide
Nos ensaios, a presença de amiloide foi demonstrada por PET ou por dosagem de biomarcadores no líquor, obtido por punção lombar. A ANVISA, ao registrar o segundo anticorpo da classe, também estabeleceu como condição a patologia amiloide confirmada. As diferenças entre os métodos estão no artigo sobre exame de sangue, PET amiloide ou líquor.
Os exames de sangue entram nesse fluxo. A diretriz da Alzheimer's Association publicada em julho de 2025 considera que testes com sensibilidade de pelo menos 90% e especificidade de pelo menos 75% podem ser usados como triagem, e que testes com sensibilidade e especificidade de pelo menos 90% podem substituir o PET ou o líquor como confirmação. As recomendações valem para pacientes com comprometimento cognitivo em serviço especializado, e a própria diretriz alerta que muitos testes comerciais não atingem esses limiares.
Nos exames Memora, na plataforma de quimioluminescência utilizada, a combinação de pTau217 e beta-amiloide alcançou 93% de acurácia em relação ao PET amiloide (sensibilidade 93%, especificidade 92%). No contexto de uma decisão terapêutica, entendemos o exame de sangue como etapa de triagem: um resultado negativo torna pouco provável a presença de amiloide, e um resultado positivo ou na zona intermediária costuma seguir para PET ou líquor, a critério do neurologista.
Genotipagem do APOE
O alelo ε4 do gene APOE é o principal fator genético de risco para ARIA. Em análise genômica de 1.691 pacientes tratados em dois ensaios de fase 3 com outro anticorpo anti-amiloide, a razão de chances para ARIA com edema foi de 4,28 nos homozigotos ε4/ε4 e de 1,74 nos heterozigotos ε3/ε4. Por isso, as recomendações de uso apropriado indicam a genotipagem antes do tratamento, para informar a discussão de risco com o paciente.
No Brasil, a ANVISA estabeleceu que a genotipagem deve ser realizada antes do tratamento, e a relação benefício-risco foi considerada favorável somente em não portadores e heterozigotos do ε4. O significado do resultado fora do contexto terapêutico está explicado no nosso artigo sobre APOE ε4 e risco de Alzheimer.
Ressonância magnética de base e monitoramento
A ressonância antes do início identifica achados que contraindicam o tratamento. Nas condições de registro publicadas pela ANVISA, elas incluem hemorragia intracerebral prévia, mais de quatro micro-hemorragias, siderose superficial, edema vasogênico ou sinais de angiopatia amiloide cerebral. Durante o tratamento, novas ressonâncias são feitas em intervalos definidos, conforme detalhado nas recomendações de uso apropriado, para detectar ARIA mesmo quando não há sintomas.
O que é ARIA?
ARIA é a sigla em inglês para alterações de imagem relacionadas ao amiloide (amyloid-related imaging abnormalities). Há dois tipos. A ARIA-E corresponde a edema ou efusão no tecido cerebral; a ARIA-H, a micro-hemorragias ou siderose superficial, que são depósitos de hemossiderina na superfície do cérebro. As duas são identificadas pela ressonância magnética.
A maior parte dos casos não provoca sintomas e é detectada apenas nos exames de controle. Uma parcela pequena é grave e, muito raramente, fatal. No ensaio publicado no JAMA, 205 pacientes tratados tiveram ARIA-E, dos quais 52 com sintomas.
Os anticorpos anti-amiloide estão aprovados no Brasil?
Sim, com restrições. A ANVISA publicou o registro do primeiro anticorpo monoclonal anti-amiloide em 22 de abril de 2025 e o do segundo em 22 de dezembro de 2025. Em ambos, a indicação é o tratamento do comprometimento cognitivo leve ou da demência leve devidos à doença de Alzheimer, em adultos não portadores ou heterozigotos do alelo ε4 do APOE, com genotipagem prévia obrigatória. O uso concomitante de anticoagulantes também aparece entre as restrições.
Nos Estados Unidos, a FDA concedeu aprovação tradicional a um desses anticorpos em 6 de julho de 2023 e aprovou o outro em 2 de julho de 2024, com alerta em destaque na bula para ARIA e orientação de testar o APOE ε4 antes do início. Registro sanitário não significa disponibilidade imediata nem cobertura; a disponibilidade e as regras de uso no Brasil devem ser confirmadas com o médico assistente.
Onde os exames da Vinci se encaixam?
Na Vinci, oferecemos duas etapas dessa avaliação. Para quem tem queixa de memória ou comprometimento cognitivo em investigação, o exame de sangue para Alzheimer (Memora Essencial ou pTau217 isolada) funciona como triagem da patologia amiloide, com coleta na unidade de Higienópolis ou coleta residencial em São Paulo, por profissional habilitado. Não são exames de rastreamento e não têm indicação para pessoas sem sintomas. Os fundamentos estão no nosso artigo sobre os biomarcadores do exame de sangue para Alzheimer.
O Exame Genético APOE pode ser feito por autocoleta, com kit enviado para todo o Brasil, ou presencialmente em São Paulo. Os exames dispensam pedido médico, pois a solicitação é emitida pela direção técnica da Vinci, e incluem consulta médica para interpretação. São exames de apoio: não diagnosticam isoladamente, não garantem acesso ao tratamento e não substituem o neurologista, a quem cabe a indicação.
Memora Essencial
Biomarcadores: Aβ42/Aβ40 + pTau217
Coleta: unidade ou residencial (São Paulo)
Indicação: pessoas com sintomas cognitivos
Consulta médica: inclusa
p-Tau217
Biomarcador: proteína Tau 217 fosforilada
Coleta: unidade ou residencial (São Paulo)
Indicação: pessoas com sintomas cognitivos
Consulta médica: inclusa
Exame Genético APOE
Análise: genotipagem ε2/ε3/ε4
Coleta: autocoleta em todo o Brasil ou presencial (São Paulo)
Jejum: não é necessário
Consulta médica: inclusa
Perguntas frequentes
Quem pode receber tratamento anti-amiloide?
Adultos com comprometimento cognitivo leve ou demência leve devidos à doença de Alzheimer, com patologia amiloide confirmada. No Brasil, a ANVISA restringiu a indicação a não portadores ou heterozigotos do alelo ε4 do APOE. Uso de anticoagulantes e certas alterações na ressonância magnética contraindicam o tratamento. A decisão cabe ao neurologista.
Que exames são exigidos antes?
Confirmação da patologia amiloide por PET ou líquor, genotipagem do APOE e ressonância magnética de base, além da avaliação neurológica e cognitiva. Os exames de sangue para Alzheimer (razão Aβ42/Aβ40 e pTau217) servem como triagem antes da confirmação.
Por que fazer o teste APOE antes do tratamento?
Porque portadores do alelo ε4, sobretudo os homozigotos (ε4/ε4), têm risco maior de ARIA. Em análise de 1.691 pacientes tratados com um anticorpo anti-amiloide, a razão de chances para ARIA com edema foi de 4,28 nos homozigotos e de 1,74 nos heterozigotos. No Brasil, a genotipagem é exigida antes do início, e o tratamento não é indicado para homozigotos.
O exame de sangue substitui o PET para iniciar o tratamento?
Em geral, não. A diretriz da Alzheimer's Association de 2025 admite que testes de sangue com sensibilidade e especificidade de pelo menos 90% substituam o PET ou o líquor na investigação diagnóstica em serviço especializado. Para a decisão terapêutica, os ensaios usaram PET ou líquor, e o exame de sangue costuma funcionar como triagem: um resultado positivo ou intermediário segue para confirmação, a critério do neurologista.
O que é ARIA?
São alterações de imagem relacionadas ao amiloide, vistas na ressonância magnética de pacientes tratados com anticorpos anti-amiloide. A ARIA-E corresponde a edema ou efusão, e a ARIA-H, a micro-hemorragias ou siderose superficial. A maioria não causa sintomas, mas há casos graves e, muito raramente, fatais.
O tratamento cura o Alzheimer?
Não. Nos ensaios de fase 3, os anticorpos anti-amiloide reduziram a carga amiloide e desaceleraram de forma moderada o declínio cognitivo e funcional em cerca de 18 meses de acompanhamento, mas os pacientes tratados continuaram a piorar. O tratamento não reverte os sintomas nem interrompe a doença.
Avaliação de biomarcadores na Vinci
Exame de sangue para Alzheimer e genotipagem do APOE, com consulta médica inclusa para interpretação do resultado.
Referências científicas
Referências compiladas e verificadas no PubMed e nas fontes oficiais citadas.
- van Dyck CH, et al. Lecanemab in Early Alzheimer's Disease. N Engl J Med. 2023;388(1):9–21. doi.org/10.1056/NEJMoa2212948
- Sims JR, et al. Donanemab in Early Symptomatic Alzheimer Disease: The TRAILBLAZER-ALZ 2 Randomized Clinical Trial. JAMA. 2023;330(6):512–527. doi.org/10.1001/jama.2023.13239
- Cummings J, et al. Lecanemab: Appropriate Use Recommendations. J Prev Alzheimers Dis. 2023;10(3):362–377. doi.org/10.14283/jpad.2023.30
- Palmqvist S, et al. Alzheimer's Association Clinical Practice Guideline on the use of blood-based biomarkers in the diagnostic workup of suspected Alzheimer's disease within specialized care settings. Alzheimers Dement. 2025;21(7):e70535. doi.org/10.1002/alz.70535
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- Loomis SJ, et al. Genome-Wide Association Studies of ARIA From the Aducanumab Phase 3 ENGAGE and EMERGE Studies. Neurology. 2024;102(3):e207919. doi.org/10.1212/WNL.0000000000207919
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Kisunla (donanemabe): novo registro. Publicado em 22/04/2025. gov.br/anvisa (consultado em 23/10/2026).
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). LEQEMBI (lecanemabe): novo registro. Publicado em 22/12/2025. gov.br/anvisa (consultado em 23/10/2026).
- U.S. Food and Drug Administration. FDA Converts Novel Alzheimer's Disease Treatment to Traditional Approval. 06/07/2023. fda.gov
- U.S. Food and Drug Administration. FDA approves treatment for adults with Alzheimer's disease. 02/07/2024. fda.gov