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Zonulina sérica ou fecal: como escolher o exame para avaliar a permeabilidade intestinal

25 May 2026 8 min de leitura
Zonulina sérica ou fecal: como escolher o exame para avaliar a permeabilidade intestinal

A barreira intestinal é uma das estruturas mais sofisticadas do corpo humano. Composta por mucosa, células epiteliais, junções intercelulares e células de defesa, ela decide, a cada instante, o que entra na circulação e o que precisa ficar do lado de fora. Quando esse mecanismo se desregula, fala-se em aumento da permeabilidade intestinal — uma alteração funcional associada a uma série de condições inflamatórias, metabólicas e autoimunes.

Entre os marcadores disponíveis para avaliar essa função, a zonulina ocupa um lugar de destaque. Mas existe uma dúvida frequente — inclusive entre médicos: vale mais dosá-la no sangue ou nas fezes? Este texto explica o que cada exame avalia, em que situações cada um é mais adequado e quais são as limitações que todo paciente e profissional deveria conhecer.


O que é a zonulina e por que ela importa

A zonulina foi descrita pelo grupo do Dr. Alessio Fasano, hoje na Harvard Medical School, no início dos anos 2000. Trata-se de uma proteína sintetizada nas células intestinais e hepáticas que regula reversivelmente as junções entre as células do epitélio intestinal — as chamadas tight junctions.¹ ²

Em condições normais, essas junções funcionam como um filtro biológico: permitem a passagem controlada de nutrientes e impedem a entrada de patógenos, toxinas e partículas alimentares não digeridas. Quando a zonulina é liberada em excesso, esse "filtro" se afrouxa e a permeabilidade intestinal aumenta.²

A literatura científica associa níveis elevados de zonulina e/ou evidências de hiperpermeabilidade intestinal a diferentes condições, entre elas:

  • Doença celíaca — em que o glúten estimula a liberação da zonulina pela via do receptor CXCR3.² ³
  • Diabetes tipo 1 — em que alterações da barreira intestinal podem preceder o desenvolvimento da autoimunidade.⁴
  • Doença inflamatória intestinal (Crohn e retocolite ulcerativa).⁵
  • Doença hepática gordurosa não alcoólica.²
  • Cirrose hepática.⁶
  • Artrite reumatoide, esclerose múltipla e outras condições autoimunes.² ⁷
  • Obesidade e síndrome metabólica.⁸

É importante destacar que a zonulina não é um marcador diagnóstico isolado dessas doenças. Ela é um marcador funcional: indica que a barreira intestinal pode estar comprometida, sem apontar a causa.


Como se mede a permeabilidade intestinal?

Antes de comparar as duas formas de dosagem da zonulina, vale entender o cenário maior. A revisão de Michael Camilleri, da Mayo Clinic, publicada na revista Gut em 2019, organizou os principais métodos utilizados na prática clínica e em pesquisa:⁹

  • Testes com açúcares (lactulose/manitol, sucrose, sucralose/eritritol) — medem a passagem de moléculas administradas por via oral pela urina.
  • Biomarcadores séricos — incluem zonulina, LPS (lipopolissacarídeo bacteriano), I-FABP (proteína ligadora de ácidos graxos intestinal).
  • Biomarcadores fecais — incluem zonulina fecal e calprotectina.
  • Métodos invasivos — biópsias com avaliação da resistência transepitelial, endomicroscopia confocal.

Camilleri ressalta um ponto fundamental: não existe ainda um exame padrão-ouro universal para a permeabilidade intestinal.⁹ Cada método mede uma faceta diferente do fenômeno — por isso, a interpretação sempre exige contexto clínico.


Zonulina sérica vs zonulina fecal: qual a diferença?

Esse é o ponto central. As duas dosagens não medem exatamente a mesma coisa — e essa nuance precisa estar clara antes de qualquer pedido.

Zonulina sérica (no sangue)

A zonulina dosada no soro reflete a liberação sistêmica da proteína. Como a zonulina é produzida não apenas no intestino, mas também em outros tecidos — fígado, tecido adiposo, cérebro, coração, pulmões, rins e células imunes —, o nível sanguíneo é o resultado combinado de várias fontes.¹⁰

Quando ela tende a ser mais informativa:

  • Condições com componente sistêmico significativo — doenças metabólicas (obesidade, síndrome metabólica), hepatopatias e quadros autoimunes.⁸ ¹⁰
  • Estudos que correlacionam permeabilidade com inflamação sistêmica de baixo grau.¹¹
  • Avaliação em pesquisas que combinam zonulina sérica com testes de absorção (lactulose/manitol).⁹

Atenção: em pacientes com insuficiência renal, a depuração da zonulina sérica fica comprometida — e o resultado pode não refletir adequadamente a permeabilidade intestinal.¹²

Zonulina fecal (nas fezes)

A zonulina fecal mede a proteína eliminada no lúmen intestinal, sendo por isso considerada um marcador mais específico do compartimento gastrointestinal.¹⁰

Quando ela tende a ser mais informativa:

  • Avaliação local da integridade da barreira intestinal.
  • Investigação complementar em sintomas digestivos persistentes — distensão abdominal, alteração do hábito intestinal, intolerâncias alimentares.
  • Estudos em doença inflamatória intestinal pediátrica, onde a zonulina fecal mostrou boa correlação com a atividade da doença e com a calprotectina fecal.⁵
  • Avaliação em condições associadas a disbiose e inflamação local.

Resumindo a comparação

Característica Zonulina Sérica Zonulina Fecal
Matriz Sangue (soro) Fezes
O que reflete Liberação sistêmica (intestino + outros órgãos) Compartimento intestinal local
Tipo de coleta Sangue venoso na unidade Amostra de fezes em casa
Cenários mais estudados Doenças metabólicas, autoimunes, hepáticas DII, sintomas digestivos, alterações da microbiota
Influência de outros órgãos Sim (fígado, tecido adiposo, etc.) Menor — mais específico do intestino
Limitação importante Filtração renal pode alterar o resultado Variabilidade entre amostras

Quando faz sentido pedir cada exame?

Não existe uma resposta única — a escolha depende da suspeita clínica e do objetivo da investigação. Algumas situações em que cada matriz costuma ser preferida:

A zonulina sérica costuma ser preferida quando:

  • A investigação envolve um quadro sistêmico (metabólico, autoimune, hepático).
  • O paciente apresenta inflamação de baixo grau com repercussão extraintestinal.
  • O médico precisa correlacionar a permeabilidade intestinal com outros marcadores sanguíneos (PCR, hepatograma, perfil lipídico).

A zonulina fecal costuma ser preferida quando:

  • O foco é a avaliação local do intestino.
  • Há sintomas digestivos predominantes (distensão, alteração do hábito intestinal).
  • Há suspeita de disbiose, intolerâncias alimentares ou inflamação intestinal de baixo grau.
  • O exame é parte de uma investigação combinada com calprotectina, microbioma ou metabolômica.

Em muitos casos, os dois exames podem ser complementares — especialmente quando se busca uma compreensão mais ampla do eixo intestino–sistêmico.


Limitações importantes que você precisa conhecer

A Vinci Lab acredita que comunicação científica honesta protege o paciente. Por isso, é importante explicar três pontos que costumam ficar de fora do debate:

1. A zonulina é um marcador indireto

A dosagem da zonulina não confirma diagnóstico de nenhuma doença específica. Ela sinaliza alterações funcionais da barreira intestinal — que precisam ser interpretadas no contexto clínico individual, junto com história, exame físico e outros exames complementares.²

2. Há controvérsias metodológicas

Em 2018, o estudo de Scheffler e colaboradores, publicado na Frontiers in Endocrinology, mostrou que os ensaios ELISA comerciais usados para dosar zonulina podem capturar proteínas estruturalmente relacionadas — não apenas a pré-haptoglobina-2 (a forma originalmente descrita da zonulina).¹³ O próprio Dr. Fasano, em 2021, respondeu na revista Gut propondo que os ensaios atuais detectam uma família de proteínas relacionadas estrutural e funcionalmente (chamadas de zonulin family proteins), o que ajuda a explicar a associação clínica observada nas pesquisas.¹⁴

Na prática, isso significa que o exame mantém valor como marcador funcional — desde que interpretado com cautela e ciência atualizada.

3. Não existe padrão-ouro universal

Como destacado por Camilleri⁹, nenhum exame isolado consegue traduzir, sozinho, toda a complexidade da barreira intestinal. A zonulina é uma peça do quebra-cabeças — útil, mas não definitiva.


Como a Vinci Lab oferece os exames

A Vinci Lab disponibiliza as duas modalidades de dosagem da zonulina, com análise em laboratório com acreditação PALC (SBPC/ML) e CAP (College of American Pathologists):

  • Zonulina Fecal — coleta em casa, com kit enviado pela Vinci. Disponível para a cidade de São Paulo, devido à necessidade de transporte refrigerado.
  • Zonulina Sérica (em sangue) — coleta exclusivamente presencial na unidade Vinci do Higienópolis Medical Center (Rua Mato Grosso, 306, Loja 07 — São Paulo/SP), por exigência de processamento imediato da amostra.

Em ambos os casos, após o resultado, você terá uma consulta diagnóstica remota com um médico da Vinci, sem custo adicional, para interpretar o exame no seu contexto e orientar os próximos passos.

📲 Tem dúvidas sobre qual exame faz mais sentido para o seu caso?
Fale com a Vinci pelo WhatsApp — nossa equipe médica vai te orientar.


Conclusão

A zonulina é, hoje, o marcador funcional mais bem estabelecido da permeabilidade intestinal, com mais de duas décadas de literatura científica acumulada. A escolha entre a dosagem sérica e a fecal não é uma questão de "qual é melhor", mas de qual responde melhor à pergunta clínica que se quer responder.

A medicina de precisão começa exatamente aí: na seleção correta do exame, na interpretação contextualizada do resultado e no acompanhamento médico que transforma um número de laboratório em uma decisão de cuidado.


Referências bibliográficas

  1. Fasano A. Zonulin and its regulation of intestinal barrier function: the biological door to inflammation, autoimmunity, and cancer. Physiological Reviews. 2011;91(1):151-175. DOI: 10.1152/physrev.00003.2008
  2. Fasano A. Intestinal permeability and its regulation by zonulin: diagnostic and therapeutic implications. Clinical Gastroenterology and Hepatology. 2012;10(10):1096-1100. DOI: 10.1016/j.cgh.2012.08.012
  3. Lammers KM, Lu R, Brownley J, et al. Gliadin induces an increase in intestinal permeability and zonulin release by binding to the chemokine receptor CXCR3. Gastroenterology. 2008;135(1):194-204. DOI: 10.1053/j.gastro.2008.03.023 · PubMed: 18485912
  4. Heickman LKW, DeBoer MD, Fasano A. Zonulin as a potential putative biomarker of risk for shared type 1 diabetes and celiac disease autoimmunity. Diabetes/Metabolism Research and Reviews. 2020;36(8):e3309. DOI: 10.1002/dmrr.3309
  5. Szymańska E, Wierzbicka A, Dadalski M, Kierkuś J. Fecal zonulin as a noninvasive biomarker of intestinal permeability in pediatric patients with inflammatory bowel diseases — correlation with disease activity and fecal calprotectin. Journal of Clinical Medicine. 2021;10(17):3905. DOI: 10.3390/jcm10173905 · PubMed: 34501351
  6. Dumitru A, Tocia C, Dumitru E, et al. Intestinal permeability assessed by serum zonulin in liver cirrhosis: a systematic review and meta-analysis. Medicine (Baltimore). 2025;104(16):e42197. DOI: 10.1097/MD.0000000000042197
  7. Sturgeon C, Fasano A. Zonulin, a regulator of epithelial and endothelial barrier functions, and its involvement in chronic inflammatory diseases. Tissue Barriers. 2016;4(4):e1251384. DOI: 10.1080/21688370.2016.1251384
  8. Bona MD, Torres CHM, Lima SCVC, Morais AHA, Lima AÂM, Maciel BLL. Intestinal barrier permeability in obese individuals with or without metabolic syndrome: a systematic review. Nutrients. 2022;14(17):3649. DOI: 10.3390/nu14173649
  9. Camilleri M. Leaky gut: mechanisms, measurement and clinical implications in humans. Gut. 2019;68(8):1516-1526. DOI: 10.1136/gutjnl-2019-318427
  10. Vanuytsel T, Tack J, Farre R. The role of intestinal permeability in gastrointestinal disorders and current methods of evaluation. Frontiers in Nutrition. 2021;8:717925. DOI: 10.3389/fnut.2021.717925
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  12. Pyatchenkov MO, Sherbakov EV, Trandina AE, Buntovskaia AS, Glushakov RI. Serum and fecal zonulin as a biomarker of increased intestinal epithelial permeability in patients with renal insufficiency. Russian Military Medical Academy Reports. 2023;42(3):237-246. DOI: 10.17816/rmmar456495
  13. Scheffler L, Crane A, Heyne H, et al. Widely used commercial ELISA does not detect precursor of haptoglobin2, but recognizes properdin as a potential second member of the zonulin family. Frontiers in Endocrinology. 2018;9:22. DOI: 10.3389/fendo.2018.00022 · PubMed: 29459849
  14. Fasano A. Zonulin measurement conundrum: add confusion to confusion does not lead to clarity. Gut. 2021;70(10):2007-2008. DOI: 10.1136/gutjnl-2020-323367
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